Fiz as pazes com a poesia

Eu decidi partir numa jornada em busca da eu de 16 anos que começou a escrever esse blog. Aquela que escreve prosa com poesia, que quis ser Carrie Bradshaw e depois quis ser Fernanda Young, mas sabia que queria trabalhar com bichos. Aquela eu estaria radiante de ver minha vida hoje. Eu tenho quase tudo que sempre sonhei, mas não restou quase nada da poesia, e perceber isso foi o início do processo. Eu fiz as pazes com a poesia.

O que faz a vida valer a pena

O gostoso da vida adulta é que os amigos que restaram são aqueles que, quando a gente vê, já viraram nossa família. A gente já acompanhou vários relacionamentos começarem e terminarem, a gente já andou cambaleando e se apoiando uns nos outros pelas baladas, já chorou nos casamentos, assistiu nascer o primeiro filho, até ajudou a decorar festa de criança junto. Precisa mais do que isso pra ser família?

Precisa não.

Eu amo meus amigos. De verdade.

Tudo muda o tempo todo…

É engraçado olhar os registros do wordpress e ver que determinados posts do meu blog ainda têm um fluxo de visitação. Os sistemas de busca não nos esqueceram, mas eu não deixo de pensar na hipótese de alguém que me conheceu resolver procurar por mim aqui, principalmente porque costumo ser bem low profile em redes sociais. Eu continuo gostando muito de escrever, só não tenho certeza se ainda sei fazer isso. O Sem Lenço não foi feito pra ninguém ler, foi feito apenas para ser um apanhado de registros que a “eu do passado” quis deixar para a “eu do futuro”. Só que hoje eu sei que o futuro é agora, e que esses recados são pra mim. Quando leio o Sem Lenço, não fico exatamente feliz com o que a “eu do passado” escreveu. Eu não sou mais essa pessoa que fala em homens e mulheres pastéis, por exemplo. Eu não concordo e nem me identifico mais com muita coisa que registrei aqui (ainda bem!). Pensei em deletar tudo, em restringir o acesso e sei lá, fingir que nunca pensei ou escrevi essas coisas, mas não vou fazer isso. Em algum lugar no tempo, o que aconteceu continua existindo, independente da gente colocar o ponto final ou deletar o registro na internet, e isso me faz feliz. Os laços e as dores registrados aqui já eram imortais antes de serem registrados e as personagens da história continuam sendo personagens ainda que tenham saído da trama. Talvez a gente tenha se encontrado enquanto esses registros aqui estavam sendo escritos e você seja uma personagem da minha história. Talvez, não. Eu acredito que a gente pode se conhecer e se re-conhecer e essa impermanência é um aprendizado valioso, portanto é mais construtivo me mandar uma mensagem, me chamar pra um café, me dizer que lembrou de mim, em vez de revisitar textos antigos e tristes. Me manda um oi 🙂

Você me amaria novamente

Foram alguns anos de aprendizado, algumas conquistas, outras tantas perdas. Logo completaremos seis anos sem nos falar, e eu não posso dizer que deixei de te lembrar, assustadoramente, todos os dias. Você me amaria novamente se soubesse que te deixei livre, anos atrás, porque te amo tanto? Que as experiências me fizeram uma pessoa melhor, capaz de reconhecer muitos dos erros que cometi com a vida, com você? Talvez você me amasse novamente se soubesse que por seis anos eu levei suas lembranças para o travesseiro, não passei nenhum aniversário seu sem te lembrar, e não deixei de imaginar como seria bom poder dividir minhas conquistas com você. As tentativas forçadas de amar outro alguém até me distraíram por um tempo, bem pouco tempo. E por mais que eu me obrigasse a não pensar mais em você, suas lembranças ainda me vinham nos sonhos ou nas tardes de domingo. Não tenho nenhuma explicação para isso que não seja amor. Amor, desses que a gente não controla, nem entende. Amor, o profundo querer-bem que não passa nunca, que respeita a liberdade, mesmo que isso signifique não ter nenhum contato com quem se ama. O amor liberta e respeita.

Ver você tão transformado me faz pensar que você ainda não aprendeu quem você é. Me faz perceber que você ainda tenta com todas as forças ser quem acha que deveria, sem saber que, se precisa forçar, é porque você não é. Se precisa insistir, mesmo contrariado, é porque você não quer. Se precisa machucar para se encaixar, é porque não é o encaixe certo. Mais do que não esquecer você, eu não esqueci quem você é, e isso me fez uma pessoa melhor. Espero que você também não se esqueça.

E sim, você me amaria novamente se me conhecesse outra vez e, se tivesse coragem.

A parte mais bonita

luto

Vou guardar para sempre teus abraços quentes, teu olhar de puro amor e carinho, teu cuidado com o meu café sem açucar, teus bolinhos que alegraram minha infância e minhas tardes de domingo na loucura da vida adulta. Teu cabelo macio, teu cheiro, tuas cores e saias de linho. Vou guardar pra sempre o amor que me deu, a alegria que trazia pra casa quando chegava. As piadas, as novelas no final da tarde. Eu deveria ter tido mais pressa em viver e menos pressa em cumprir prazos. Eu não deveria ter ignorado a urgência da vida e te levado logo pra conhecer o mar – “Eu tenho medo, é água demais, aquela aguacera toda…” Hoje, já não temos tempo. Me perdoe por priorizar as coisas erradas tantas vezes. Eu não tive, nem tenho a tua grandeza, nem herdei tua força e ternura, que mesmo com tanto sofrimento de uma vida dura, jamais deixaram de brilhar no teu olhar desarmado e simples. A simplicidade mais genuína que já vi. Obrigada por ser parte de mim. Eu ainda não sei qual é a minha parte mais bonita, mas tenho certeza que ela veio de você.

Sobre o amor da vida

Eu não acredito que exista algum jeito de desamar. Não acho que exista esse botãozinho que, quando acionado, alguém que um dia a gente amou passa a ser um desconhecido que a gente nem cumprimenta quando cruza na rua. Eu acho, no entanto, que a gente deseja tanto que aconteça o tal amor, que acaba inventando, confundindo e chamando assim relacionamentos que incluem sexo, amizade, ciúme, paixão…tudo isso que desaparece com a rotina, com a distância, com o tempo.

Passei muitos anos achando que o amor, essa coisa que os poetas e escritores enfiaram na nossa cabeça que é imortal, atemporal e absoluto, era mentira. E não é. Pelo menos, não completamente. Talvez, o amor romântico seja uma mentira, mas o amor, esse é o que existe de mais concreto nessa vida. Amor da família, dos amigos, e o tal amor da vida, aquele que chegou disfarçado de romance, bagunçou a cama e o coração, e foi embora deixando lágrimas nos olhos. Talvez, esse amor vire apenas uma boa lembrança, uma boa amizade, um carinho. E talvez ele seja amor de verdade, desses que mesmo após anos sem contato, a gente reconhece de longe, no meio de uma multidão. Ele pode ter mudado o estilo de se vestir, o corte de cabelo, os amigos, a postura, ter deixado a barba crescer, mas a gente reconhece de longe e sem óculos, e sabe que foi amor. E continua sendo.

Os poetas estavam certos quando disseram que o amor resiste ao tempo e a distância. Só esqueceram de nos contar que o amor não é suficiente para manter juntas vidas que não se encaixam. Talvez exista o tal destino, e ele trate disso mais tarde. E se não tratar, ao menos posso garantir que o tal amor da vida existe, e é aquele que não precisa ser lembrado porque nunca é esquecido. O amor da vida, a gente reconhece.

Algumas pessoas podem amar-te mais em um ano do que outras poderiam te amar em cinquenta anos. Algumas pessoas podem ensinar-te mais em um único dia do que outras durante toda a sua vida. E quem somos nós para chamar essas pessoas de algo que não seja ‘amores de nossas vidas’?” (Heidi Priebe)

Diga a ele que ela não fala mais dele. Talvez pense, mas nunca mais falou. Diga que ela está mudada. Que se livrou dos remédios pra dormir, e hoje é alguém que ama gatos, cultiva plantas e até começou a praticar yoga. Ele deve lembrar do jeito sobrecarregado e desorganizado dela e saber que foram duas ou três sessões de yoga até ela achar uma desculpa pra não ir mais. Mas ela mudou bastante, eu juro. Quer dizer, ela continua gostando de ir ao cinema sozinha, de filmes de baixo orçamento e brigadeiro de panela. Continua sem saber se alimentar e deixando de cozinhar pra não ter que lavar a louça, mas até topa cozinhar se tiver companhia. Diga a ele que ela se envergonha de muitas opiniões e atitudes de anos atrás. Que ela cresceu e que jamais visitou novamente as ideias da direita política. Que ela quer se tornar vegetariana e fazer trabalho voluntário. Diga a ele que ela aprendeu a calar, mas ainda sabe se impôr quando precisa, e faz com muita elegancia. Continua tomando café sem açucar e o único vício dela ainda é doce de leite. Conta pra ele que ela ama verdadeiramente o que estuda, que ela se realiza todos os dias com o que faz. Que ela continua fugindo de tudo e de todos, mas é só força do hábito. Diga a ele que já tem uns 5 anos que ela substituiu roupas pretas por coloridas e não pinta mais o cabelo de jeito nenhum. Conta pra ele que ela ainda lembra dele no mês de setembro, mas desistiu de ter saudade. Talvez, lá no fundinho, ela ainda o espere, mas jamais vai admitir – a não ser pra si mesma. Ela está mais próxima do equilíbrio, na maior parte do tempo. Diga que ele iria adorar conhecê-la novamente. E que ele deveria.