Você me amaria novamente

Foram alguns anos de aprendizado, algumas conquistas, outras tantas perdas. Logo completaremos seis anos sem nos falar, e eu não posso dizer que deixei de te lembrar, assustadoramente, todos os dias. Você me amaria novamente se soubesse que te deixei livre, anos atrás, porque te amo tanto? Que as experiências me fizeram uma pessoa melhor, capaz de reconhecer muitos dos erros que cometi com a vida, com você? Talvez você me amasse novamente se soubesse que por seis anos eu levei suas lembranças para o travesseiro, não passei nenhum aniversário seu sem te lembrar, e não deixei de imaginar como seria bom poder dividir minhas conquistas com você. As tentativas forçadas de amar outro alguém até me distraíram por um tempo, bem pouco tempo. E por mais que eu me obrigasse a não pensar mais em você, suas lembranças ainda me vinham nos sonhos ou nas tardes de domingo. Não tenho nenhuma explicação para isso que não seja amor. Amor, desses que a gente não controla, nem entende. Amor, o profundo querer-bem que não passa nunca, que respeita a liberdade, mesmo que isso signifique não ter nenhum contato com quem se ama. O amor liberta e respeita.

Ver você tão transformado me faz pensar que você ainda não aprendeu quem você é. Me faz perceber que você ainda tenta com todas as forças ser quem acha que deveria, sem saber que, se precisa forçar, é porque você não é. Se precisa insistir, mesmo contrariado, é porque você não quer. Se precisa machucar para se encaixar, é porque não é o encaixe certo. Mais do que não esquecer você, eu não esqueci quem você é, e isso me fez uma pessoa melhor. Espero que você também não se esqueça.

E sim, você me amaria novamente se me conhecesse outra vez e, se tivesse coragem.

A parte mais bonita

luto

Vou guardar para sempre teus abraços quentes, teu olhar de puro amor e carinho, teu cuidado com o meu café sem açucar, teus bolinhos que alegraram minha infância e minhas tardes de domingo na loucura da vida adulta. Teu cabelo macio, teu cheiro, tuas cores e saias de linho. Vou guardar pra sempre o amor que me deu, a alegria que trazia pra casa quando chegava. As piadas, as novelas no final da tarde. Eu deveria ter tido mais pressa em viver e menos pressa em cumprir prazos. Eu não deveria ter ignorado a urgência da vida e te levado logo pra conhecer o mar – “Eu tenho medo, é água demais, aquela aguacera toda…” Hoje, já não temos tempo. Me perdoe por priorizar as coisas erradas tantas vezes. Eu não tive, nem tenho a tua grandeza, nem herdei tua força e ternura, que mesmo com tanto sofrimento de uma vida dura, jamais deixaram de brilhar no teu olhar desarmado e simples. A simplicidade mais genuína que já vi. Obrigada por ser parte de mim. Eu ainda não sei qual é a minha parte mais bonita, mas tenho certeza que ela veio de você.

Sobre o amor da vida

Eu não acredito que exista algum jeito de desamar. Não acho que exista esse botãozinho que, quando acionado, alguém que um dia a gente amou passa a ser um desconhecido que a gente nem cumprimenta quando cruza na rua. Eu acho, no entanto, que a gente deseja tanto que aconteça o tal amor, que acaba inventando, confundindo e chamando assim relacionamentos que incluem sexo, amizade, ciúme, paixão…tudo isso que desaparece com a rotina, com a distância, com o tempo.

Passei muitos anos achando que o amor, essa coisa que os poetas e escritores enfiaram na nossa cabeça que é imortal, atemporal e absoluto, era mentira. E não é. Pelo menos, não completamente. Talvez, o amor romântico seja uma mentira, mas o amor, esse é o que existe de mais concreto nessa vida. Amor da família, dos amigos, e o tal amor da vida, aquele que chegou disfarçado de romance, bagunçou a cama e o coração, e foi embora deixando lágrimas nos olhos. Talvez, esse amor vire apenas uma boa lembrança, uma boa amizade, um carinho. E talvez ele seja amor de verdade, desses que mesmo após anos sem contato, a gente reconhece de longe, no meio de uma multidão. Ele pode ter mudado o estilo de se vestir, o corte de cabelo, os amigos, a postura, ter deixado a barba crescer, mas a gente reconhece de longe e sem óculos, e sabe que foi amor. E continua sendo.

Os poetas estavam certos quando disseram que o amor resiste ao tempo e a distância. Só esqueceram de nos contar que o amor não é suficiente para manter juntas vidas que não se encaixam. Talvez exista o tal destino, e ele trate disso mais tarde. E se não tratar, ao menos posso garantir que o tal amor da vida existe, e é aquele que não precisa ser lembrado porque nunca é esquecido. O amor da vida, a gente reconhece.

Algumas pessoas podem amar-te mais em um ano do que outras poderiam te amar em cinquenta anos. Algumas pessoas podem ensinar-te mais em um único dia do que outras durante toda a sua vida. E quem somos nós para chamar essas pessoas de algo que não seja ‘amores de nossas vidas’?” (Heidi Priebe)

Diga a ele que ela não fala mais dele. Talvez pense, mas nunca mais falou. Diga que ela está mudada. Que se livrou dos remédios pra dormir, e hoje é alguém que ama gatos, cultiva plantas e até começou a praticar yoga. Ele deve lembrar do jeito sobrecarregado e desorganizado dela e saber que foram duas ou três sessões de yoga até ela achar uma desculpa pra não ir mais. Mas ela mudou bastante, eu juro. Quer dizer, ela continua gostando de ir ao cinema sozinha, de filmes de baixo orçamento e brigadeiro de panela. Continua sem saber se alimentar e deixando de cozinhar pra não ter que lavar a louça, mas até topa cozinhar se tiver companhia. Diga a ele que ela se envergonha de muitas opiniões e atitudes de anos atrás. Que ela cresceu e que jamais visitou novamente as ideias da direita política. Que ela quer se tornar vegetariana e fazer trabalho voluntário. Diga a ele que ela aprendeu a calar, mas ainda sabe se impôr quando precisa, e faz com muita elegancia. Continua tomando café sem açucar e o único vício dela ainda é doce de leite. Conta pra ele que ela ama verdadeiramente o que estuda, que ela se realiza todos os dias com o que faz. Que ela continua fugindo de tudo e de todos, mas é só força do hábito. Diga a ele que já tem uns 5 anos que ela substituiu roupas pretas por coloridas e não pinta mais o cabelo de jeito nenhum. Conta pra ele que ela ainda lembra dele no mês de setembro, mas desistiu de ter saudade. Talvez, lá no fundinho, ela ainda o espere, mas jamais vai admitir – a não ser pra si mesma. Ela está mais próxima do equilíbrio, na maior parte do tempo. Diga que ele iria adorar conhecê-la novamente. E que ele deveria.

Sobre os últimos anos…

Ela viajou. Conheceu muitas pessoas. Acampou na praia, dançou em volta da fogueira. Pegou caronas. Foi em todas as festas que era convidada, assistiu todos os filmes que quis. Escreveu uma música. Fez novos amigos, conheceu outros lugares, traçou novos planos, mudou de cidade. Achou um novo namorado, cogitou se casar, tentou gostar de crianças, cortou o cabelo, mudou de emprego. A saudade persistia a cada noite. Ela lamentou. E resistiu. Viu que estava no caminho errado. Ficou sozinha novamente. Parou de escrever. Deixou de acreditar. Resistiu. Se fortaleceu. Ela agora sabia como eram o extremos – o da felicidade e o da tristeza. Ela passou pelos corredores mais sombrios da vida, sozinha. Resistiu. Percebeu que precisava voltar a sonhar, não com um futuro distante, mas com o que encontraria no dia seguinte. Ela tomou as rédeas da própria vida. Ela endureceu o coração de verdade dessa vez, mas ainda não aprendeu a matar o passado. E ainda não descobriu quantas vidas ele tem.

Coisas que a gente sabe que faz

A gente sabe que às vezes foge. Sem perceber, faz coisas sem saber o motivo e sem parar pra pensar que tá fazendo pra fugir. A gente sabe que às vezes se força a fazer coisas que acha que precisa, mas não quer. A gente se molda em fôrmas onde não cabe.

Uma vez, durante o término de um relacionamento com um cara muito bacana, ele me disse que sentia como se estivesse tentando encaixar um quadrado dentro de um círculo. Teria que cortar as pontas, e ainda ficaria alguns buracos. (Tem como não gostar de um cara que faz um paralelo desses?) O relacionamento acabou em comum acordo, e descobrimos que somos melhores em sermos amigos do que em tentar vestir o que não nos cabe. Nos tornamos um para o outro o que tínhamos potencial para ser: duas pessoas que querem o bem uma da outra e que se apoiam no que podem. Porque o amor pode ter várias formas, a amizade é uma delas. E isso não é a gente que define. Mas a gente sabe que às vezes, tenta. E insiste. E se machuca tentando se encaixar onde não cabe.

A gente sabe, mas finge não saber que, enquanto tenta se moldar onde não cabe, está deixando um vazio em algum outro lugar onde se encaixaria perfeitamente – se tivesse coragem de ir até lá.

O segredo

Eu não sei se já escrevi isso aqui, mas é um aprendizado não tão recente que sempre se confirma: o segredo da vida é acreditar nela. A vida mostrou que minha pressa era o que me colocava no caminho contrário de onde eu queria chegar, trouxe pessoas ótimas, levou amigos que não eram amigos e só acrescentavam peso à minha vida. A vida mostrou a verdade quando eu estava enganada. A vida me trouxe de volta quando eu estava me distanciando de onde deveria estar. Sou grata, e sempre vou confiar na vida.

“Não podia ter havido dois corações tão sinceros, nem gostos tão semelhantes, nem sentimentos tão em uníssono, nem rostos tão amados. Agora era como se fossem estranhos, não, pior do que estranhos, porque nunca se conheceriam. Eram estranhos para sempre.”

(Persuasão – Jane Austen)

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