Diga a ele que ela não fala mais dele. Talvez pense, mas nunca mais falou. Diga que ela está mudada. Que se livrou dos remédios pra dormir, e hoje é alguém que ama gatos, cultiva plantas e até começou a praticar yoga. Ele deve lembrar do jeito sobrecarregado e desorganizado dela e saber que foram duas ou três sessões de yoga até ela achar uma desculpa pra não ir mais. Mas ela mudou bastante, eu juro. Quer dizer, ela continua gostando de ir ao cinema sozinha, de filmes de baixo orçamento e brigadeiro de panela. Continua sem saber se alimentar e deixando de cozinhar pra não ter que lavar a louça, mas até topa cozinhar se tiver companhia. Diga a ele que ela se envergonha de muitas opiniões e atitudes de anos atrás. Que ela cresceu e que jamais visitou novamente as ideias da direita política. Que ela quer se tornar vegetariana e fazer trabalho voluntário. Diga a ele que ela aprendeu a calar, mas ainda sabe se impôr quando precisa, e faz com muita elegancia. Continua tomando café sem açucar e o único vício dela ainda é doce de leite. Conta pra ele que ela ama verdadeiramente o que estuda, que ela se realiza todos os dias com o que faz. Que ela continua fugindo de tudo e de todos, mas é só força do hábito. Diga a ele que já tem uns 5 anos que ela substituiu roupas pretas por coloridas e não pinta mais o cabelo de jeito nenhum. Conta pra ele que ela ainda lembra dele no mês de setembro, mas desistiu de ter saudade. Talvez, lá no fundinho, ela ainda o espere, mas jamais vai admitir – a não ser pra si mesma. Ela está mais próxima do equilíbrio, na maior parte do tempo. Diga que ele iria adorar conhecê-la novamente. E que ele deveria.

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