Oi.

Oi.

Duas letrinhas. Monossílabo. Assim, sem exclamação no final.

Um “oi” é pouco. É quase nada. É, realmente, nada, comparado ao que eu preciso. Ao que mereço. Ao que espero. Seis anos não se resumem em um “oi”. Esse universo todo que ficou em mim não se resume em duas letras. Cada dia dos últimos seis anos não cabe num “oi”. Não cabe num encontro infeliz e casual. Não cabe num olhar sob vigilância. Não cabe na dúvida do motivo de você tentar tanto se esquivar de qualquer contato. Duas letras são mais do que suficientes para eu entender, mais uma vez, o quanto preciso te matar em mim. Por inteiro. Qualquer lembrança. Todo sentimento. Preciso mandar embora mais vezes, e achar novas maneiras de te exorcizar, porque por anos a fio, todas as tentativas falharam. Preciso te agradecer mais vezes por tantos anos de sentimento inexplicável, imortal, inesquecível. Preciso te agradecer pela saudade e lamento permanentes. E preciso, mais uma vez, deixar ir. Já me atentei a superar cada detalhe, a eliminar cada lembrança, a substituir cada sonho em comum. Eu já tentei tudo que podia. Eu já não sei o que fazer. E tudo que você pode me dar no momento, ainda é pouco. Muito pouco. Eu não quero o seu “oi”. Eu quero você na minha vida.

 

Survivor.

Estava se aprontando para dormir, quando o celular notificou uma nova solicitação de amizade. Era seu primeiro namoradinho, aquele que ela havia levado para a igreja, e depois a pediu em namoro e a beijou no ponto de ônibus. Várias lembranças meio desbotadas passaram em sua mente, e ficou imaginando como seria sua vida hoje, se não tivesse essa mania de não ter medo de estar só.

Teria se casado com aquele namoradinho militar, e hoje estaria compartilhando campanhas “Bolsonaro para presidente” e “Fora PT” no Facebook, morando em uma vila militar, frequentando festas cristãs, cuidando de crianças e indo pra academia todo final de tarde?

Talvez, tivesse se casado com seu segundo namoradinho e hoje estaria pesando 40kg, doente, depressiva, com a auto estima destruída, 3 filhos pra cuidar e várias queixas na delegacia da mulher? Talvez seu corpo e sua mente não teriam aguentado 10 anos de agressões, manipulações, violência e traição e hoje seria apenas uma lembrança dolorida no porta retrato da estante da sala dos seus pais, ou talvez estivesse sozinha, catando os cacos de sua vida e lutando por uma ordem de restrição judicial.

Talvez ela estaria casada com seu terceiro namoradinho, jantando todo final de semana no Outback, cuidando de sua casa com cômodos pequenos e programando a viagem ao interior nas próximas férias.

Ela poderia também ter se casado com o outro namorado, aquele que foi o amor da vida dela mas nunca soube disso. Poderia ir dormir todos os dias religiosamente no mesmo horário, e ter todos os seus finais de semana agendados previamente na rotina familiar, após algumas doses de tequila na sexta a noite pra descontrair. Ou poderia ter continuado tomando aquelas tequilas que precisou para esquecer o amor e levar adiante a idéia de ficar com quem lhe dava abrigo. Talvez tivesse se casado com aquele – até então – amigo, que se mostrou um psicopata perseguidor. Talvez ela não estivesse mais viva para contar essa história, já que violência contra mulheres é facilmente justificada com ciumes ou “paixão demais”. Poderia também ter se casado com aquele que apareceu como quem não quer nada, prometeu parceria e cumplicidade para ela, e para as outras namoradas.

Na linha do tempo que conseguiu projetar, ela percebeu que sobreviveu da melhor forma possível. E sentiu orgulho de ser quem é.

How do You love?

Eu amo compartilhando uma panela de brigadeiro e minha lista de filmes pra assistir ainda nessa vida. Amo compartilhando links de música, mandando coraçõezinhos no whatsapp, reservando meu final de semana.

Inclusive, estou amando agora.

Eu amo sendo verdadeiramente quem sou. Não sei amar de outra forma.

E a verdade que você encontra, sempre será a verdade que você esconde.

Como você ama?

Além do ponto

“…porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta. Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu, mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com u m quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora…”

– Caio Fernando Abreu

Pra você

Escrevo pra dizer que penso em você. Pra você entender que distância e tempo só fizeram mais bonita a saudade, que vez em quando ainda me faz chorar, e vez em quando também me faz sorrir.
Dizem que “o passado é apenas uma história que contamos à nós mesmos” – veja só, você é meu capítulo preferido, e eu já jurei tantas vezes parar de te ler mas sempre leio, releio e não canso de me encantar com uma saudade sempre nova, com uma nova versão de mim, e uma antiga versão de você.

– escrito em 15/02/2014

Devolve?

Devolve, por favor, aqueles assuntos desconexos que falávamos no telefone todos os dias antes de dormir. Me devolve poder te ligar nas madrugadas de trovoada, ou da mesa de um bar qualquer, naquela época em que eu ainda podia dizer o quanto sentia sua falta. Me devolve a vontade de ir para um almoço de família no domingo, mesmo sem vontade. Me devolve os domingos sem fazer nada, as noites de quarta com vinho barato e comida congelada. Devolve aquelas noites de sábado com tequila, os planos desenhados no meu caderno com folhas recicladas. Me devolve toda sua complicação, suas roupas de frio que me davam alergia, seus drinks improvisados, sua mania de esquecer o saca-rolhas. Me devolve seu hábito de seguir procedimentos padrões e a minha rebeldia de sempre fazer o oposto do que você pediu. Me devolve a oportunidade de ser a melhor versão de mim?